
O debate presidencial promovido pela TV Globo na noite de sexta-feira (23) foi marcado por momentos de tensão entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que disputam o segundo turno das eleições de 2026. Um dos principais embates ocorreu quando Flávio fez referência à perda de um dedo da mão esquerda de Lula, consequência de um acidente de trabalho sofrido pelo presidente aos 17 anos.
A declaração provocou uma reação indignada de Lula, que relembrou sua trajetória como trabalhador metalúrgico e cobrou respeito aos milhões de brasileiros que dependem do próprio trabalho para sobreviver.
“Se tem alguém nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos fui eu, trabalhando à noite porque precisava trabalhar”, afirmou o presidente.
Lula também criticou as condições que expõem trabalhadores a acidentes e destacou a responsabilidade dos empregadores na prevenção de riscos ocupacionais.
O episódio teve novos desdobramentos durante o debate. Flávio Bolsonaro pediu desculpas ao presidente pela referência aos “nove dedos”, embora também tenha cobrado desculpas de Lula por declarações feitas durante a campanha. O confronto se tornou um dos momentos mais comentados do último debate antes da votação de domingo (25).
Trajetória de Lula e apelo à democracia
Nas considerações finais, Lula voltou a destacar sua história pessoal e política. O presidente mencionou os diferentes trabalhos que realizou desde a infância, incluindo atividades como vendedor ambulante e engraxate, até chegar à profissão de torneiro mecânico e, posteriormente, à Presidência da República.
Lula agradeceu aos brasileiros que acompanharam o debate e pediu votos para o segundo turno. Em seu discurso, apresentou a eleição como uma decisão sobre os rumos políticos do país e defendeu a continuidade do funcionamento das instituições democráticas.
O presidente também chamou o adversário de “fanaticamente mentiroso” e afirmou que os eleitores deveriam avaliar as propostas e a trajetória dos dois candidatos antes de decidir o voto.
Nordeste e transposição do Rio São Francisco
A situação do Nordeste esteve entre os assuntos discutidos pelos candidatos. Flávio Bolsonaro atribuiu ao governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a conclusão de obras relacionadas à transposição do Rio São Francisco. Lula, por sua vez, defendeu o histórico de investimentos de seus governos na infraestrutura hídrica e em outras áreas da região.
O projeto de integração do Rio São Francisco é uma obra de grande porte, concebida para ampliar a segurança hídrica de municípios do semiárido nordestino. Sua execução ocorreu ao longo de diferentes governos, o que torna necessário distinguir as etapas de construção, conclusão e operação do empreendimento ao avaliar as afirmações dos candidatos.
Lula também mencionou investimentos em adutoras, universidades, institutos federais e atividades industriais. Ao defender maior atenção à região, afirmou que os nordestinos merecem igualdade de condições e respeito em relação às demais regiões do país.
Pandemia e críticas ao governo Bolsonaro
A condução da pandemia de Covid-19 também foi tema de confronto. Lula voltou a criticar a atuação do governo de Jair Bolsonaro durante a crise sanitária e recordou declarações e episódios que provocaram controvérsia pública, incluindo a reação do então presidente às pessoas que enfrentavam dificuldades respiratórias.
Flávio Bolsonaro contestou a interpretação apresentada pelo adversário e argumentou que o episódio havia sido retirado de contexto. O tema reacendeu a disputa entre os candidatos sobre a responsabilidade do governo federal durante a pandemia e as consequências da crise para a população brasileira.
Agronegócio e agricultura familiar
Na discussão sobre o setor agropecuário, Lula defendeu os investimentos realizados durante sua gestão no financiamento da produção, no apoio ao agronegócio e no incentivo à agricultura familiar.
O presidente afirmou que seu governo ampliou as oportunidades para produtores brasileiros e destacou a abertura de mercados internacionais para produtos nacionais.
Ao abordar as tensões comerciais com os Estados Unidos, Lula defendeu a diversificação das relações comerciais brasileiras e afirmou que o país pode buscar compradores em outros mercados caso encontre barreiras comerciais.
Salário mínimo e poder de compra
A política de valorização do salário mínimo também ocupou espaço no debate. Lula defendeu os reajustes acima da inflação promovidos por seu governo e argumentou que a recuperação do poder de compra beneficia trabalhadores, aposentados e famílias de baixa renda.
O presidente afirmou que, sem a política de valorização, o salário mínimo seria de apenas R$ 900. A declaração foi utilizada como argumento político durante o confronto, mas o valor hipotético depende de uma comparação econômica que exige considerar os reajustes efetivamente concedidos e a evolução da inflação ao longo dos anos.
Em 2026, o salário mínimo nacional está fixado em R$ 1.621, conforme decreto publicado pelo governo federal.
Debate termina com disputa sobre os rumos do país
O último confronto televisivo antes do segundo turno reuniu discussões sobre economia, políticas sociais, saúde pública, segurança, relações comerciais e o histórico dos dois grupos políticos.
Além da apresentação de propostas, o encontro foi marcado por ataques pessoais e cobranças mútuas. Com a votação marcada para domingo (25), os candidatos buscaram convencer os eleitores sobre qual projeto político deve conduzir o país nos próximos anos.