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Investigações sobre hospitais federais do Rio voltam ao debate e levantam suspeitas sobre influência de Flávio Bolsonaro durante a pandemia

Reportagem da Agência Pública reuniu documentos, auditorias e depoimentos sobre a gestão de seis hospitais entre 2019 e 2022.

Redação
Por: Redação
22/10/2026 às 07h58
Investigações sobre hospitais federais do Rio voltam ao debate e levantam suspeitas sobre influência de Flávio Bolsonaro durante a pandemia
Investigações sobre hospitais federais do Rio voltam ao debate e levantam suspeitas sobre influência de Flávio Bolsonaro durante a pandemia. Foto: Charles Vieira/Campanha de Flávio Bolsonaro.

A administração dos hospitais federais do Rio de Janeiro durante a pandemia de Covid-19 voltou ao centro do debate político nacional após a divulgação de uma investigação jornalística que aponta suspeitas de influência política, contratos questionados e problemas no funcionamento de unidades de saúde durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O caso ganhou nova repercussão em outubro de 2026, depois que uma reportagem da Agência Pública, publicada em 1º de outubro, reuniu documentos oficiais, auditorias e depoimentos de gestores e ex-gestores sobre a rede hospitalar. O material aborda a suposta influência do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na escolha de dirigentes e em decisões administrativas das unidades.

As informações também foram retomadas durante o debate presidencial da TV Bandeirantes, realizado em 18 de outubro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou o adversário sobre a situação dos hospitais federais durante o governo de seu pai. Flávio reagiu às acusações e afirmou que Lula estava apresentando informações falsas. 

Até o momento, as suspeitas apresentadas contra o senador precisam ser diferenciadas das irregularidades administrativas identificadas em auditorias. Não há, nas informações consultadas, condenação judicial que estabeleça a responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro por desvios ou fraudes nos contratos dessas unidades.

Como começou o caso?

As suspeitas sobre a influência política na rede hospitalar federal do Rio já haviam sido levantadas durante a CPI da Covid, instalada pelo Senado em 2021 para investigar ações e omissões do poder público na condução da pandemia.

Na ocasião, o então governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel afirmou que os hospitais federais do estado tinham influência política sobre sua administração. Posteriormente, seu depoimento foi relacionado a suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro, embora a atribuição de responsabilidade ao senador tenha sido contestada.

Flávio exercia mandato de senador e não ocupava cargo administrativo no Ministério da Saúde. Apesar disso, gestores e ex-gestores ouvidos pela Agência Pública atribuíram a ele influência sobre nomeações e decisões relacionadas às unidades federais.

Uma das reuniões documentadas ocorreu em 28 de maio de 2019, quando Flávio Bolsonaro se encontrou com integrantes do Ministério da Saúde, entre eles o então ministro Luiz Henrique Mandetta e o médico Marcelo Muniz Lamberti. O encontro consta da agenda oficial da pasta. A existência da reunião, por si só, não comprova irregularidade.

As suspeitas se concentram na possível influência sobre a escolha de dirigentes e na administração de contratos de serviços terceirizados.

Quais hospitais foram envolvidos?

A investigação jornalística analisou a situação de seis unidades federais do Rio de Janeiro:

  • Hospital Federal de Bonsucesso;

  • Hospital Federal do Andaraí;

  • Hospital Federal Cardoso Fontes;

  • Hospital Federal de Ipanema;

  • Hospital Federal da Lagoa;

  • Hospital Federal dos Servidores do Estado.

Essas unidades receberam mais de R$ 3 bilhões para custeio e funcionamento entre 2019 e 2022, segundo os dados reunidos pela reportagem. O montante corresponde ao orçamento global do período e não significa que esse valor tenha sido desviado.

A apuração descreve mudanças administrativas, indicações políticas e questionamentos sobre contratos de limpeza, vigilância, apoio administrativo e fornecimento de materiais hospitalares.

Auditorias apontaram possíveis sobrepreços

Um dos principais pontos da investigação envolve relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo a Agência Pública, foram reunidos 13 relatórios do TCU e cinco da CGU com apontamentos de sobrepreços em procedimentos de contratação.

Entre os exemplos mencionados está uma compra prevista de insumos para cirurgia vascular no Hospital dos Servidores, estimada em R$ 120,9 milhões. A auditoria identificou preços superdimensionados em aproximadamente R$ 69 milhões.

Em outro procedimento, relacionado à aquisição de medicamentos oncológicos, foi apontado sobrepreço de R$ 18,1 milhões em uma contratação estimada em R$ 31,3 milhões.

É importante destacar que os valores identificados como sobrepreço não devem ser tratados automaticamente como dinheiro efetivamente pago a mais ou desviado. Conforme o material apresentado, as auditorias identificaram valores excessivos durante procedimentos de contratação, antes da assinatura dos contratos questionados.

A reportagem também cita contratações sem licitação autorizadas por dirigentes hospitalares, incluindo procedimentos que somaram milhões de reais.

Leitos fechados e falta de profissionais durante a Covid-19

Além dos contratos, a situação dos leitos hospitalares foi um dos pontos examinados pela CPI da Covid.

O relatório final da comissão registrou que aproximadamente 30% dos leitos clínicos e de terapia intensiva dos hospitais e institutos federais do Rio permaneceram fechados durante a pandemia. A falta de profissionais de saúde foi apontada como um dos principais fatores para a indisponibilidade.

No fim de dezembro de 2020, cerca de 3,5 mil contratos de profissionais foram encerrados nas unidades federais do estado. Uma medida provisória posterior prorrogou aproximadamente 1,4 mil desses vínculos por 60 dias, segundo as informações reunidas no material da investigação.

No Hospital Federal de Bonsucesso, a CPI também registrou o fechamento de serviços especializados e a utilização limitada de leitos durante o período de emergência sanitária.

Em abril de 2023, uma fiscalização da Câmara dos Deputados identificou 735 leitos inoperantes ou bloqueados na rede federal do Rio, além de alas fechadas, obras paralisadas e equipamentos sem utilização.

Esses problemas de funcionamento foram objeto de registros e fiscalizações. A atribuição de responsabilidade individual pelas falhas, entretanto, depende da análise das decisões administrativas e das provas relativas a cada envolvido.

Ministro da Saúde atribui influência política ao senador

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou publicamente que Flávio Bolsonaro exercia influência sobre a administração dos hospitais federais durante o governo de Jair Bolsonaro.

Em entrevista à Agência Pública, Padilha citou contratos terceirizados nos quais, segundo seu relato, o número de trabalhadores previsto seria superior ao de profissionais efetivamente presentes. O ministro também relacionou as indicações políticas à deterioração da rede hospitalar.

As declarações representam as acusações apresentadas por Padilha e precisam ser distinguidas das conclusões formais de auditorias e decisões judiciais.

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ) também fez acusações públicas sobre a suposta influência do senador na escolha de dirigentes e na gestão das unidades.

Pedido ao STF busca apurar possível participação

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia de fato solicitando que a atuação de Flávio Bolsonaro fosse examinada em investigação relacionada às conclusões da CPI da Covid.

O pedido menciona auditorias e declarações sobre a administração dos hospitais federais. A iniciativa busca esclarecer se o senador teve participação nas irregularidades apontadas.

O encaminhamento de uma notícia de fato não significa que o STF tenha reconhecido a responsabilidade criminal do parlamentar, nem equivale automaticamente à abertura de uma ação penal. É necessário verificar quais providências foram efetivamente adotadas pelo tribunal.

O que diz Flávio Bolsonaro?

Durante o debate presidencial de 18 de outubro, Flávio Bolsonaro rebateu as acusações feitas por Lula e afirmou que o presidente estava apresentando informações falsas. No mesmo confronto, o senador reconheceu que a saúde não foi uma das áreas com melhores resultados durante o governo de seu pai.

Na reportagem publicada em 1º de outubro, a Agência Pública informou que Flávio não respondeu aos pedidos de entrevista enviados durante a apuração. Marcelo Muniz Lamberti, por sua vez, declarou que os atos de sua gestão estão registrados nos sistemas oficiais e afirmou que nomeações e exonerações dependiam das instâncias superiores do Ministério da Saúde.

Caso volta ao debate nacional

A repercussão recente colocou novamente em discussão a administração da rede federal de saúde do Rio durante um dos períodos mais críticos da pandemia. Os documentos e relatórios citados nas investigações apontam problemas de funcionamento e questionamentos sobre contratações, enquanto depoimentos e declarações políticas levantam suspeitas sobre a influência exercida na escolha de dirigentes.

O ponto central, porém, permanece na apuração da responsabilidade individual. A existência de falhas administrativas ou sobrepreços apontados por auditorias não comprova, por si só, que Flávio Bolsonaro tenha cometido um crime.

A eventual participação do senador nas irregularidades precisa ser demonstrada por meio de provas e procedimentos oficiais. O caso reúne, portanto, duas questões distintas: os problemas documentados na rede hospitalar durante a pandemia e a investigação sobre quem teria influenciado ou se beneficiado de decisões administrativas questionadas.

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