
O cantor e compositor Flávio José, considerado um dos maiores expoentes do forró tradicional, fez um forte desabafo sobre a perda de espaço do gênero nas festividades regionais. Em entrevista divulgada nesta sexta-feira (5), o artista lamentou a descaracterização das programações dos eventos juninos e expressou profunda preocupação com o futuro da música que representa a identidade cultural do Nordeste.
A insatisfação do forrozeiro culminou no cancelamento de todas as suas apresentações agendadas para o estado da Bahia neste ano. A decisão foi tomada após um impasse envolvendo as diretrizes de fiscalização do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA).
Durante manifestação na página de Instagram São João na Bahia, Flávio José expôs o desejo de que as gestões municipais repensassem os critérios de contratação para valorizar a herança cultural local. Contudo, ele se mostrou pessimista:
“Eu gostaria que as cidades se espelhassem em outras que estão começando a entender que a nossa música é da nossa cultura e tradição, mas eu ainda acho que isso está muito distante”.
O cantor apontou que muitas grades de eventos ignoram completamente o forró pé-de-serra e criticou o fato de que sua contratação, às vezes, parece ser usada apenas de forma simbólica. “Eu vejo algumas nas quais eu fui colocado, talvez, muito mais para dar uma satisfação, para dizer: ‘Não, tinha forró, tinha Flávio José’", desabafou.
O cancelamento da agenda de shows do artista na Bahia foi motivado por uma recomendação de adequação financeira emitida pelo MP-BA:
O órgão questionou o valor de R$ 350 mil estipulado para o cachê do cantor nesta edição. O montante representava um reajuste de 40% (R$ 100 mil a mais) em comparação com o valor cobrado no ano anterior.
Diante da pressão fiscalizadora sobre os municípios, a equipe de Flávio José cancelou as apresentações, alegando desrespeito à trajetória do músico.
O cantor defende que o controle rígido sobre os cachês de ícones da cultura nordestina é contraditório e injusto, principalmente quando comparado às cifras milionárias pagas a atrações de outros estilos musicais (como o sertanejo) que não possuem ligação histórica com o São João.
Por outro lado, o Ministério Público da Bahia alega que sua atuação se baseia em critérios estritamente técnicos e impessoais para assegurar a responsabilidade fiscal das prefeituras diante da escalada de gastos públicos.
O órgão passou a recomendar reajustes atrelados ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), conforme acordado previamente com a União dos Municípios da Bahia (UPB). O MP-BA reiterou, no entanto, que permanece aberto ao diálogo consensual com os representantes legais de Flávio José.