
O uso crescente de medicamentos injetáveis para perda de peso e tratamento de diabetes — como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Victoza — trouxe à tona um risco silencioso para mulheres em idade fértil: a possibilidade de uma gravidez indesejada devido à interferência desses remédios no sistema digestivo.
Especialistas e entidades médicas, como a FEBRASGO, alertam que o mecanismo que gera o emagrecimento é o mesmo que pode "anular" a pílula oral.
O segredo dessas "canetas" (substâncias como semaglutida e tirzepatida) está no retardo do esvaziamento gástrico.
Absorção Lenta: Ao fazer com que o estômago esvazie mais devagar para prolongar a saciedade, o medicamento também atrasa a absorção de outros remédios orais.
Pílula Comprometida: O anticoncepcional pode não ser absorvido pelo organismo na dosagem necessária ou no tempo correto, reduzindo sua eficácia protetora.
Efeitos Colaterais: Náuseas, vômitos e diarreia — comuns no início desses tratamentos — são fatores que expulsam o anticoncepcional do corpo antes de sua absorção completa.
Para as mulheres que utilizam ou pretendem utilizar as canetas emagrecedoras, a orientação é clara:
Métodos de Barreira: Associar o uso da pílula ao preservativo (camisinha) para garantir proteção extra.
Troca de Método: Considerar a migração para métodos que não dependem do trato digestivo, como o DIU (hormonal ou de cobre) ou o implante subcutâneo.
Planejamento de Gravidez: Se houver intenção de engravidar, o medicamento deve ser suspenso pelo menos um mês antes, pois não há segurança comprovada de uso durante a gestação ou amamentação.
A Dra. Mariane Nadai alerta para notícias falsas que circulam nas redes sociais:
Fato: A perda de peso pode ajudar a regular o ciclo menstrual em mulheres com Ovário Policístico (SOP), voltando a ovular naturalmente.
Mito: O remédio não melhora a fertilidade por si só. Ele é indicado exclusivamente para obesidade e diabetes tipo 2.
A endocrinologista Camila Viecceli, que atua no Hospital da Bahia, destaca a importância do acompanhamento médico durante todo o tratamento com estas substâncias, para ajustar as dosagens e fazer os ajustes necessários, de acordo com as respostas de cada organismo. De acordo com a especialista, cerca de 30% dos pacientes vão apresentar reações adversas que exigem algum tipo de intervenção.
Ela cita o caso, por exemplo, dos “excelentes respondedores”, aquelas pessoas nas quais o efeito da medicação é tão intenso, que elas perdem totalmente o apetite. “Não queremos que ninguém pare de comer”, afirma Camila, explicando que a liraglutida e a semaglutida, que são inibidores do hormônio GLP-1, costumam provocar quedas de peso em torno de 9% e 15%, respectivamente. Já a trizepatida, que atua também nos receptores do hormônio GIP, responsável pelo controle da insulina, pode chegar a perdas de 20% do peso total do paciente.
“O peso é apenas um dos elementos que orientam o tipo de tratamento, mas outras questões influenciam muito como diabetes, hipertensão e a gordura no fígado”, enumera. A médica também alerta para a necessidade de uma mudança de estilo de vida, o que passa, obrigatoriamente, por uma reeducação alimentar e pela prática de exercícios físicos, para a manutenção dos resultados alcançados. “Estas medicações trouxeram grandes benefícios para o paciente, mas é preciso entender os riscos, seguir o protocolo e levar em conta que cada caso é um caso”, reforça.