Durante entrevista concedida à Rádio Sociedade da Bahia na manhã desta sexta-feira (23), o prefeito de São Francisco do Conde, Antônio Calmon, reconheceu publicamente a grave crise financeira enfrentada pelo município. No entanto, apesar de admitir números alarmantes e dificuldades históricas, a fala do gestor reforçou uma sensação já percebida pela população: falta de planejamento, escassez de informações claras e ausência de soluções efetivas por parte da administração municipal.
Ao ser questionado sobre a perda de arrecadação de um município que já figurou entre os maiores PIBs do país, o prefeito atribuiu a crise quase exclusivamente à saída da Petrobras e à mudança no modelo operacional da refinaria, atualmente sob gestão privada. Segundo ele, enquanto a Petrobras operava com níveis de refino entre 50% e até 90%, a nova refinaria opera com menos de 30%, o que teria provocado uma queda brusca na arrecadação municipal.
Calmon afirmou que São Francisco do Conde perdeu entre 60% e 65% da sua receita, impacto que, segundo ele, inviabiliza uma gestão financeira equilibrada. No entanto, o prefeito não explicou por que, ao longo dos anos, o município não se preparou para um cenário de queda previsível, especialmente diante das mudanças estruturais no setor de petróleo.
Dados citados na entrevista — e disponíveis no Portal da Transparência — revelam uma realidade preocupante:
2020: R$ 576 milhões
2021: R$ 770 milhões
2022: R$ 842 milhões
2023: R$ 764 milhões
2024: R$ 520 milhões
2025: R$ 351 milhões
Em apenas três anos, São Francisco do Conde viu sua arrecadação anual cair de R$ 842 milhões para R$ 351 milhões. Isso significa que, atualmente, a prefeitura arrecada cerca de R$ 28 a R$ 29 milhões por mês, enquanto apenas a folha de pagamento consome cerca de R$ 18 milhões mensais.
Mesmo diante desse cenário, o prefeito não detalhou como a gestão pretende garantir investimentos mínimos em áreas essenciais, como saúde e educação, que constitucionalmente exigem percentuais fixos da receita. Como o próprio entrevistador ressaltou: a conta simplesmente não fecha.
Confira aqui a entrevista:
Calmon afirmou que a saída tem sido cortar contratos, alguns em até 50% e outros totalmente, e citou inclusive a redução salarial de servidores da Câmara Municipal como exemplo da gravidade da situação. Ainda assim, não apresentou um plano estruturado de médio ou longo prazo, limitando-se a repetir que “é preciso cortar gastos”.
A entrevista também expôs um dado preocupante: a prefeitura é hoje o maior empregador do município. Com a redução das atividades da refinaria, que antes empregava cerca de 4 mil trabalhadores e hoje mantém pouco mais de mil em períodos de manutenção, a dependência do poder público aumentou — sem que a gestão tenha conseguido diversificar a economia local.
O prefeito destacou programas sociais criados em gestões anteriores, como o Pão na Mesa e a Bolsa Universitária, admitindo que o município enfrenta dificuldades para mantê-los. Ainda assim, afirmou que alguns seguem ativos, sem esclarecer quais critérios estão sendo usados para garantir a continuidade desses benefícios.
Ao final da entrevista, o apresentador Kalil direcionou críticas aos veículos de comunicação locais, afirmando que “criticar é fácil” e pedindo que jornalistas procurem a Secretaria da Fazenda para entender os números.
A fala, no entanto, ignora o papel constitucional da imprensa e o trabalho sério realizado pelos veículos locais, que atuam com ética, responsabilidade e base documental. As matérias publicadas são fundamentadas em dados oficiais, decisões administrativas, documentos públicos e relatos da própria população, exatamente como prevê o exercício do jornalismo profissional.
Cabe destacar que questionar, fiscalizar e cobrar explicações não é ataque político, mas dever da imprensa. Transparência não se resume à existência de números em portais oficiais, mas à capacidade da gestão de comunicar com clareza, antecipar informações e assumir responsabilidades diante da sociedade.
Apesar de reconhecer o colapso financeiro, o prefeito deixou claro que São Francisco do Conde dificilmente voltará ao patamar de arrecadação do passado, citando ainda a reforma tributária como mais um fator negativo. Para 2026, a principal “esperança” apresentada foi a possível construção de uma nova refinaria, novamente apostando em um cenário externo, incerto e fora do controle direto da administração municipal.
A entrevista escancarou aquilo que a população já sente no dia a dia: a crise não é real, os números são graves, e o município segue sem um plano claro, sem comunicação eficiente e sem respostas objetivas sobre o futuro. Enquanto isso, São Francisco do Conde segue enfrentando cortes, insegurança administrativa e um futuro incerto, à espera de respostas que vão além de justificativas e promessas.