A Bahia encerrou o ano de 2025 com 103 casos de feminicídio, ocupando a quarta posição no ranking nacional desse tipo de crime. O estado fica atrás apenas de São Paulo (233 casos), Minas Gerais (139) e Rio de Janeiro (104), segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), vinculado ao Ministério da Justiça.
Os números acendem um alerta para um problema que vai além da segurança pública e escancara uma grave questão social, estrutural e de proteção às mulheres. As estatísticas são alimentadas pelas secretarias de Segurança Pública dos estados e do Distrito Federal e compiladas pelo governo federal.
Dentro da Bahia, Salvador foi o município com maior número de registros de feminicídio em 2025, somando 11 casos. Em seguida aparecem Feira de Santana, com seis ocorrências, e Camaçari, com quatro. Os dados revelam que o problema atinge tanto a capital quanto cidades do interior e da Região Metropolitana.
O levantamento do Sinesp também evidencia um crescimento preocupante ao longo da última década. Em 2015, foram registrados 535 feminicídios em todo o Brasil. Cinco anos depois, em 2020, esse número quase triplicou, chegando a 1.347 casos. Já em 2025, o país contabilizou 1.470 mulheres assassinadas em crimes tipificados como feminicídio.
Especialistas apontam que os dados reforçam a necessidade de políticas públicas mais eficazes, fortalecimento da rede de proteção às mulheres, combate à violência doméstica e ações preventivas que atuem antes que os casos cheguem a desfechos fatais.
Enquanto os números seguem em alta, entidades de defesa dos direitos das mulheres cobram do poder público medidas mais rígidas, investimentos em acolhimento às vítimas e respostas mais rápidas do sistema de Justiça para conter uma violência que continua fazendo vítimas em todo o país.
Em um recorte regional, desde 2020, o território baiano acumula 641 crimes desta natureza. Salvador lidera os registros no estado com 94 casos, seguida por Feira de Santana (29), Porto Seguro (18) e Juazeiro (17).
Importância da informação e desconstrução de estereótipos
Para a presidente da Comissão de Proteção aos Direitos da Mulher da Ordem dos Advogados da Bahia (OAB-BA), Fernanda Graziella Bispo Barbosa, atualmente, a violência está naturalizada na sociedade, gerando a necessidade de uma desconstrução de estereótipos.
“A divulgação de informação é crucial para a atenção e para ajudar as mulheres a identificar e sair do ciclo de violência, visto que 68% delas não reconhecem os tipos de violência. Hoje, a violência está naturalizada na sociedade devido à criação de estereótipos de gênero impostos, que definem comportamentos ‘ideais’ para homens e mulheres”, afirma em conversa com o bahia.ba.
“Quando uma mulher foge desses padrões impostos, ela é vista como autorizando a violência contra si, que se manifesta pelo agressor ou pela sociedade através da culpabilização”, completa a especialista.
Na opinião de Fernanda, é necessário mudar os comportamentos para que tenhamos um país mais seguro para as mulheres. “Para combater a violência, é necessário desconstruir os estereótipos de gênero e parar de atribuir comportamentos ideais a homens e mulheres”, pontua.
A advogada ainda chama a atenção para o fato do feminicídio ser o último elo da corrente. “A violência, que culmina no feminicídio (o último ato), começa com violência psicológica, patrimonial e sexual, muitas vezes naturalizadas pela crença de que a mulher tem deveres sexuais e conjugais”, explica.
“A violência é um problema social que só será reduzido quando toda a sociedade se incomodar e combater ativamente e parando de reforçar estereótipos. A Lei Maria da Penha visa proteger as mulheres, não apenas punir homens, e a proteção eficaz depende de as vítimas saberem seus direitos e onde buscar socorro imediato”, conclui.