Faltando menos de um mês para o Natal, o artista plástico Ladário Brites voltou a surpreender — e dividir opiniões — ao montar um presépio nada convencional em sua casa, em Salvador. Longe da imagem serena e tradicional, a cena recriada por Brites coloca o nascimento de Jesus em meio ao caos do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, fazendo referência direta à operação policial de outubro de 2023, que deixou mais de 100 mortos.
O trabalho, forte e provocador, escancara a violência que domina o cotidiano de moradores de comunidades e convida o público a um mergulho desconfortável, porém necessário, na realidade de quem vive sob tiros, medo e abandono.
No presépio de Ladário, Maria, José e Jesus dividem espaço com policiais fortemente armados, suspeitos sem camisa e moradores aterrorizados. Até os três Reis Magos aparecem cercados por marcas de bala, simbolizando a perda total de inocência em um ambiente sufocado pela violência.
“O nascimento do menino Jesus acontece na favela, bem no meio do fogo cruzado. Isso representa os inocentes que moram ali e convivem diariamente com o medo”, ressalta o artista, que já viveu no próprio Complexo da Penha.
Entre os elementos mais impactantes está a presença do rapper Oruam, cuja música crítica à operação policial compõe a trilha sonora da obra. Além da canção, o presépio reproduz sons reais de tiros, transformando a contemplação em uma experiência chocante e difícil de ignorar.
“Quero que as pessoas reflitam. Para mim, essa operação foi um desastre. Uma ação bem feita prende quem deve ser preso — não mata mais de cem pessoas”, afirma Brites.
O cenário é repleto de detalhes: vielas, escadas, pisca-pisca, animais domésticos e cenas que reproduzem o dia a dia da comunidade. Policiais aparecem com fardas pretas e metralhadoras; suspeitos, com cabelos coloridos. No canto direito, moradores seguram cartazes pedindo paz: “Chega de chacinas! Paz no Complexo da Penha”.
Cada parte do presépio carrega um recado direto:
• a família de Jesus fugindo simboliza os moradores obrigados a abandonar suas casas;
• a Santa Ceia em cima de uma laje mostra que, mesmo em meio à miséria, ainda existe união;
• Jesus adulto jogando futebol com crianças reforça a ideia de acolhimento, sem julgamentos.
Brites se tornou conhecido pelos “presépios diferentões”. No ano passado, trouxe o universo tecnológico e empresas de Elon Musk para o centro da obra. Agora, ele escolhe o tema mais delicado e urgente: a violência que engole vidas nas comunidades brasileiras.
“Uso o presépio como parábola, não como adoração. É a forma que encontrei de expor minhas ideias”, diz.
Enquanto muitos se preparam para celebrar o período mais festivo do ano, o presépio de Ladário Brites surge como um alerta: há quem passe o Natal em meio ao medo, à dor e à injustiça. Sua obra nos obriga a enxergar o que muitos ignoram — e a ouvir quem clama por paz e dignidade.