Política Eleições 2026
Bets, SUS, dívida, milícia e Vorcaro: o que Flávio e Lula falaram no debate
Candidatos à Presidência, trocaram acusações e apresentaram propostas sobre economia, segurança pública, saúde e programas sociais no último debate antes do segundo turno
24/10/2026 07h03 Atualizada há 2 horas
Por: Redação Fonte: Uol
Lula e Flávio Bolsonaro participam de debate na Globo nesta sexta-feira (23). Foto: Reprodução, TV Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência, trocaram acusações e apresentaram propostas sobre economia, segurança pública, saúde e programas sociais no último debate antes do segundo turno, realizado nesta sexta-feira (23) pela TV Globo. 

Lula defendeu o fim das apostas online, conhecidas como bets, ao afirmar que os jogos comprometem o orçamento das famílias e contribuem para problemas de saúde mental e violência. O presidente também anunciou um leilão de até R$ 150 bilhões para comprar dívidas bancárias com desconto e retirar consumidores dos cadastros de inadimplentes.

O petista destacou o Desenrola, programa de renegociação de dívidas que, segundo ele, já beneficiou quase 16 milhões de pessoas.

Flávio responsabilizou os gastos públicos e os juros elevados pelo endividamento das famílias. Segundo o senador, mais de 80 milhões de brasileiros estão com contas atrasadas, enquanto a inflação compromete o poder de compra.

 “O brasileiro antes parcelava um fogão, parcelava um micro-ondas, parcelava geladeira. Agora parcela o que tem dentro da geladeira.” Flávio Bolsonaro (PL).

O candidato prometeu transformar a Caixa Econômica Federal no Banco da Prosperidade, para comprar e refinanciar dívidas com desconto e oferecer crédito facilitado a pequenos empreendedores. A proposta prevê carência de seis meses para pessoas físicas e de um ano para empresas.

Flávio também criticou a reforma tributária, afirmando que o novo IVA (Imposto sobre Valor Agregado) poderá chegar a 28%. O senador responsabilizou o governo pelo aumento dos impostos e pela perda do poder de compra.

Durante a crítica, Flávio usou a expressão "nove dedos" para se referir a Lula. O presidente reagiu, lembrou que perdeu um dedo em um acidente de trabalho aos 17 anos e exigiu desculpas do adversário.

“Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu.”  Lula (PT).

Maioridade penal e segurança pública

Flávio prometeu reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e permitir a responsabilização criminal a partir dos 14 anos em casos de estupro. O senador também defendeu pena mínima de oito anos para roubo de celular e castração química para estupradores de crianças.

O candidato também propôs classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas, além de reforçar a fiscalização das fronteiras.

Lula defendeu a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública e o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal para combater facções e recuperar territórios dominados pelo crime organizado.

O presidente questionou Flávio por atuar na defesa de um policial acusado de matar Ana Clara, de 5 anos, com um tiro de fuzil. Também acusou o adversário de manter relações políticas com milicianos no Rio de Janeiro.

“O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de 5 anos. Explica, que segurança é essa? Que território é esse? O território da bala?” Lula (PT).

Flávio lamentou a morte da criança, mas afirmou acreditar na inocência do policial, que ainda não havia sido julgado.

SUS e atendimento de saúde

Lula questionou Flávio sobre declarações atribuídas a integrantes de sua equipe contrárias à ampliação dos investimentos no SUS (Sistema Único de Saúde). O presidente também criticou a atuação de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19, citando o incentivo à cloroquina, declarações sobre vacinas e a falta de oxigênio em Manaus.

“Vai privatizar o SUS? Vai cobrar o SUS? É isso que vocês querem fazer? Diga pro povo o que é que você vai fazer.” Lula (PT)

Flávio negou que pretenda reduzir investimentos e lembrou que o SUS salvou a vida de seu pai após o atentado sofrido em Juiz de Fora (MG).

O senador criticou a demora no atendimento, citando esperas superiores a 700 dias para cirurgias de câncer de tireoide. Prometeu ampliar o Inca (Instituto Nacional de Câncer), renegociar dívidas das santas casas e atualizar a tabela de pagamentos do SUS.

Eu vou manter sim, vou investir no SUS sim. Flávio Bolsonaro (PL)

Aposentadorias e Bolsa Família

Flávio prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação. O senador também negou que pretenda privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobras.

Lula questionou a viabilidade das promessas e apontou supostas divergências entre o candidato e sua equipe econômica sobre os reajustes de benefícios. O presidente também perguntou se Flávio adotaria cortes de gastos semelhantes aos do presidente argentino Javier Milei.

Flávio defendeu a política econômica de Milei e acusou Lula de comprometer as contas públicas. Segundo o senador, a dívida pública brasileira chegou a R$ 11 trilhões.

Sobre o Bolsa Família, Flávio prometeu manter e reajustar o benefício, além de permitir que pessoas que consigam emprego formal ou abram uma empresa continuem recebendo o auxílio temporariamente.

Lula acusou o adversário de ter chamado o programa de "Bolsa Farelo" e cobrou explicações sobre seu voto contra a ampliação da licença-maternidade quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Flávio reconheceu o voto, alegou que temia prejudicar a contratação de mulheres e afirmou ter mudado de posição após se casar e ter duas filhas.

“Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível.” Flávio Bolsonaro (PL).

Educação e transporte gratuito

Lula prometeu ampliar o ensino em tempo integral para todas as escolas até o ensino médio em um eventual novo mandato. O presidente também anunciou a intenção de universalizar o Pé-de-Meia no ensino médio e estender o incentivo financeiro aos universitários.

"Nós vamos concluir agora, no próximo mandato, 100% de escola de tempo integral nesse país até o ensino médio. Todo mundo sabe que nós criamos O Pé-de-Meia e vamos universalizar para o ensino médio. E vamos estender O Pé-de-Meia para a universidade". Lula (PT).

Flávio prometeu manter o programa, mas criticou cortes de recursos para a infraestrutura escolar. O senador também defendeu a ampliação do ensino técnico, com aulas de tecnologia e inteligência artificial, e a criação de um auxílio-creche para mães sem vagas na rede pública.

Os candidatos também discutiram a proposta de transporte público gratuito nos fins de semana. Lula relacionou a medida ao fim da escala de trabalho 6×1, enquanto Flávio declarou apoio à gratuidade, mas afirmou que ela não compensaria a perda do poder de compra dos trabalhadores.

Obras e investimentos regionais

Flávio afirmou que o governo Lula acumula mais de 11,5 mil obras paralisadas, segundo dados que atribuiu ao TCU (Tribunal de Contas da União). O senador prometeu ampliar ferrovias, concluir a Transnordestina, eliminar pedágios para motociclistas e expandir o acesso à internet.

Lula contestou as críticas e afirmou que herdou 6 mil obras paradas. Segundo o presidente, quase R$ 800 bilhões de um programa de investimentos de R$ 1,7 trilhão já foram executados. Ele acusou Flávio de prometer projetos que já estão em andamento.

“O meu adversário parece aqueles alunos que se preparam pra fazer o vestibular E eles conseguem decorar, mas não conseguem aprender.” Lula (PT).

Os dois também disputaram o legado de investimentos no Nordeste. Lula destacou a expansão de universidades, institutos federais e a instalação do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) no Ceará. Flávio atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro a conclusão de obras da transposição do rio São Francisco e prometeu uma ferrovia entre Salvador e São Luís.

Sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, Flávio acusou Lula de descumprir compromissos de reconstrução. O senador prometeu investir em sistemas contra alagamentos em Porto Alegre e ajudar na renegociação da dívida estadual.

Os dois também disputaram o legado de investimentos no Nordeste. Lula destacou a expansão de universidades, institutos federais e a instalação do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) no Ceará. Flávio atribuiu ao governo de Jair Bolsonaro a conclusão de obras da transposição do rio São Francisco e prometeu uma ferrovia entre Salvador e São Luís.

Sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, Flávio acusou Lula de descumprir compromissos de reconstrução. O senador prometeu investir em sistemas contra alagamentos em Porto Alegre e ajudar na renegociação da dívida estadual.

"É por isso que quando o meu adversário ficou lambendo Trump pra taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado. Porque eu não nasci com medo de cara feia". Lula (PT)

 Amazônia e saneamento básico

Flávio prometeu ampliar o acesso à água tratada e à coleta de esgoto até 2033. O senador criticou o PT por ter votado contra o marco legal do saneamento e defendeu o asfaltamento da Transamazônica, a expansão da Zona Franca de Manaus e maior autonomia para os povos indígenas.

Lula destacou a retomada do Fundo Amazônia e defendeu a preservação da floresta como fonte de riqueza. O presidente também criticou Jair Bolsonaro pela atuação durante a pandemia, acusando o ex-presidente de debochar de pessoas que sofriam com a falta de oxigênio em Manaus.

Flávio negou a acusação e afirmou que o vídeo mencionado pelo adversário foi retirado de contexto. O senador também ironizou as repetidas sugestões de Lula para que os telespectadores pesquisassem informações na internet.

"Lula, quem é que governa o Brasil? É você ou é o Google? Tudo pergunta pro Google?" Flávio Bolsonaro (PL).

Banco Master e suspeitas de corrupção

Lula acusou Flávio de manter relações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e afirmou que o senador teria recebido R$ 134 milhões ligados ao empresário. O presidente também associou o adversário a outros integrantes do meio político envolvidos com o banco.

Flávio negou irregularidades e afirmou que a Polícia Federal concluiu não haver contrapartida relacionada ao seu mandato parlamentar em um investimento feito em um filme privado. Segundo o senador, a operação não envolveu recursos públicos.

O candidato do PL também acusou integrantes do governo Lula de tentar direcionar investimentos de fundos de pensão ao Banco Master. Segundo ele, a a operação envolveria R$ 10 bilhões e uma suposta cobrança de propina de 10%.

Por mais de uma vez, Flávio provocou Lula sobre o uísque de R$ 500 mil que o presidente teria recebido de presente de Vorcaro e ainda citou um áudio divulgado pela revista Veja no qual o ex-banqueiro diz ter pago R$ 30 milhões para um filme sobre Lula, "por fora", ao contrário do que teria ocorrido no financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O áudio de Vorcaro não foi reconhecido pela Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, e pela defesa do dono do Master.

Disputa por ilha e acusação contra Flávio

Lula questionou o adversário sobre uma disputa envolvendo uma ilha que, segundo o presidente, teria sido comprada por um jogador de futebol. O petista afirmou que um empresário ligado a Flávio conseguiu autorização para a propriedade em apenas uma semana, enquanto o jogador aguardava havia mais de um ano.

O presidente cobrou explicações sobre a suposta influência do senador na nomeação de um coronel para o órgão responsável pela autorização.

Flávio negou ter indicado o militar e afirmou que a Justiça já havia decidido definitivamente a disputa. Segundo ele, o empresário citado por Lula é seu amigo, mas não seu sócio.

Patrimônio e desafio para abrir contas

Os dois candidatos também trocaram acusações sobre a origem de seus patrimônios. Flávio questionou Lula sobre imóveis ligados a familiares do presidente e afirmou que o petista ocultaria bens em nome de terceiros. O senador também cobrou a divulgação de informações sobre o cartão corporativo da Presidência.

Lula respondeu propondo que os dois abrissem suas contas bancárias e apresentassem documentos à Justiça para esclarecer a origem de seus recursos. Flávio afirmou que seus bens estão declarados e atribuiu seu patrimônio à atuação como advogado, empresário e parlamentar.

Uísque e vacina

Flávio acusou Lula de ter recebido uma garrafa de uísque Macallan avaliada em R$ 500 mil e questionou se houve alguma contrapartida pelo suposto presente. O senador comparou o preço de uma dose, estimado por ele em R$ 50 mil, ao valor de benefícios do Bolsa Família.

"Qual o gostinho desse uísque aí, Lula? Conta pra eles aqui". Flávio Bolsonaro (PL)

Lula rebateu a acusação mencionando um suposto encontro de Flávio em um barco, em Brasília, em julho de 2020, para discutir vacinas contra a covid-19.

"Eu acho que esse uísque foi tomado por você em julho de 2020, quando o cara veio oferecer a vacina Covaxin para você e você foi para um barco em Brasília discutir essa vacina. E eu sei que tinha mais gente. Se você mentir, eu vou dizer quem.Flávio rejeitou as acusações e voltou a dizer que Lula estava mentindo". Lula (PT).

Milícias

Nas considerações finais, Lula pediu votos e afirmou que a eleição definiria a continuidade da democracia. O presidente acusou Flávio de manter relações com milicianos.

O senador recebeu direito de resposta, negou envolvimento com milícias e prometeu endurecer o combate às organizações criminosas.

"Eu vou combater as milícias, eu vou classificar miliciano como organização militar". Flávio Bolsonaro (PL)

Flávio afirmou que pretende devolver aos moradores de comunidades dominadas pelo crime organizado a liberdade de circular pelas ruas sem medo.