Educação EDUCAÇÃO
UNEB é investigada pelo MP-BA após nome de batismo de pessoa trans aparecer em lista de aprovados
Promotoria apura possível violação de direitos após universidade divulgar nome anterior de candidata; UNEB atribui o erro a dados recebidos do SiSU
21/09/2026 11h29
Por: Redação
Foto: Reprodução/Internet

O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) instaurou um procedimento administrativo para apurar a divulgação do nome de nascimento de uma pessoa trans em uma lista de aprovados da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

A investigação é conduzida pela 4ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos da População LGBTQIA+ e foi instaurada por meio de portaria assinada pela promotora de Justiça Márcia Regina Ribeiro Teixeira. A identidade da estudante não foi divulgada.

Segundo o MP-BA, a pessoa trans teve o nome de batismo publicado em uma relação de aprovados, apesar de já ter realizado a retificação de prenome e gênero em seu registro civil.

Para a Promotoria, a situação pode representar o descumprimento do direito ao reconhecimento da identidade civil da pessoa trans. O caso também é analisado dentro de um contexto mais amplo, já que a unidade do Ministério Público afirma ter recebido relatos semelhantes envolvendo sistemas de instituições públicas e privadas que continuam utilizando nomes anteriores mesmo após a retificação oficial.

Possível violência institucional

Na portaria, o MP-BA cita decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconhecem o direito de pessoas trans à alteração de prenome e gênero diretamente no registro civil, independentemente de cirurgia, laudo médico ou autorização judicial.

O documento também menciona normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) relacionadas à utilização do nome e gênero retificados nos documentos e sistemas vinculados ao CPF, com o nome anterior restrito a campos de acesso sigiloso.

Segundo a Promotoria, o não reconhecimento de uma alteração já formalizada no registro civil pode caracterizar violência institucional, especialmente quando ocorre em uma instituição pública de ensino.

O MP-BA também cita o entendimento do STF que equiparou atos de homofobia e transfobia ao crime de racismo, além de referências de organismos internacionais de saúde sobre os impactos da negação da identidade de gênero.

UNEB já havia sido cobrada

Outro ponto destacado pela Promotoria é que a UNEB já havia sido comunicada anteriormente sobre o caso por meio de ofício. Segundo o MP-BA, a universidade ainda não havia apresentado resposta até a instauração do novo procedimento.

Diante disso, a promotora determinou que o documento fosse reiterado pela terceira vez à instituição, cobrando uma manifestação formal sobre o ocorrido.

Após o cumprimento da medida, o procedimento deverá retornar à Promotoria, que avaliará as providências cabíveis. Entre as possibilidades estão a expedição de recomendação, a celebração de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou a adoção de medidas judiciais, caso sejam identificadas irregularidades.

UNEB atribui erro ao SiSU

Procurada pela imprensa, a UNEB informou que tomou conhecimento da publicação do nome anterior de uma pessoa trans em uma lista de aprovados do Sistema de Seleção Unificada (SiSU) 2026 e atribuiu o problema à base de dados utilizada pelo sistema federal.

Segundo a universidade, levantamentos preliminares apontaram que a divergência estaria relacionada às informações provenientes do SiSU, sistema administrado pelo Ministério da Educação.

A instituição afirmou que, nos processos seletivos administrados diretamente pela UNEB, como o Vestibular UNEB 2026 e o PSE 2026, a estudante teria sido identificada corretamente pelo nome constante em seu documento oficial atualizado.

A universidade informou ainda que determinou a correção imediata da publicação, a verificação de possíveis cópias do conteúdo em outros canais institucionais e uma apuração técnica sobre o fluxo de recebimento, importação, conferência e divulgação dos dados.

A UNEB também declarou que já apresentou documentos e informações ao MP-BA no âmbito do Procedimento Administrativo nº IDEA 003.9.143818/2026 e afirmou que continuará colaborando com a investigação.

Em nota, a instituição reforçou seu compromisso com os direitos da população trans e informou que, desde 2014, seus processos seletivos disponibilizam campo específico para indicação do nome social. A universidade também destacou a existência de políticas afirmativas de ingresso, acolhimento, assistência e permanência destinadas à população LGBTQIAPN+.

A investigação do Ministério Público ainda está em andamento e, até o momento, não há decisão definitiva apontando responsabilidade da UNEB pelo ocorrido.